Saponáceos e detergentes

termo “mito”, em sua etimologia, significa “história”, “fábula”; nos estudos da área, o mito é uma narrativa sagrada que explica como o mundo e a humanidade originaram-se e a forma que são atualmente. Mais do que isso, “são sistemas de símbolos que nos são transmitidos pela sociedade em que nos inserimos e que são fundadores – ou, ao menos, sustentadores – de tradições e comportamentos. São sistemas que distorcem a percepção da realidade para justificar certos comportamentos.” Quem nos diz isso é Roland Barthes no já clássico livro Mitologias, do qual a RapaDura reproduz dois textos: “O plástico” (21/04) e “Saponáceos e detergentes”, agora.
Boa leitura”

— Equipe RapaDura

O primeiro Congresso Mundial da Detergência (Paris, setembro de 1954) possibilitou que o mundo se abandonasse à euforia do Omo: não apenas os produtos detergentes não são nocivos para a pele, como podem até salvar os mineiros da silicose. Ora, estes produtos são, faz alguns anos, objeto de uma publicidade de tal modo maciça, que já fazem parte, hoje,dessa zona da vida cotidiana dos franceses, na qual psicanálises dos líquidos purificadores (Javel) a dos saponáceos em pó(Lux, Persil)ou dos detergentes (Rai, Paic,Crio, Omo). As relações entre o remédio e o mal, o produto e a sujeira, são essencialmente diferentes em um caso e no outro.

Por exemplo, as soluções de cloreto de sódio (Cândida) foram sempre consideradas uma espécie de fogo líquido cuja ação deve ser cuidadosamente controlada, sem o que o próprio objeto pode ser atingido”queimado”; a lenda implícita desse tipo de produto repousa sobre a ideia de uma modificação violenta, abrasiva, da matéria: a sujeira. Ao contrário, os pós são elementos separadores: o seu papel ideal consiste em libertar o objeto da sua imperfeição circunstancial: “expulsa-se” a sujeira, mas esta não morre; na propaganda visual de Omo, a sujeira é representada por um pequeno inimigo débil e negro que foge apavorado da roupa limpa e suja, sob a simples ameaça do julgamento de Omo. Os cloros e os amoníacos são, sem dúvida nenhuma,os delegados de uma espécie de fogo total, salvador, mas cego; os pós são, pelo contrário, seletivos, empurram, conduzem a sujeira através da trama do objeto, desempenham uma função de polícia, não de guerra. Esta distinção tem o seu correspondente na etnografia: o líquido químico prolonga o gesto da lavadeira batendo a roupa, e os pós substituem o da dona de casa comprimindo e torcendo a roupa ao longo do lavadouro.
 No entanto, entro da própria classe dos pós, deve-se ainda opor à publicidade psicanalítica (não dando a esta palavra o significado preciso de uma escola particular). Por exemplo, a Brancura Persil fundamenta o seu prestígio na evidência de um resultado; apela-se para a vaidade, para o amor das aparências, apresentando e comparando dois objetos, um mais branco do que o outro. A publicidade de Omo indica também o efeito do produto (aliás sob uma forma superlativa),mas revela, sobretudo, o processo da sua ação; fazendo assim com que o consumidor penetre numa espécie de mundo vivido da substância, faz com que ele se torne cúmplice de uma libertação e não usufrua apenas de um resultado;a matéria adquire assim estados-valores.

Omo utiliza dois desses estados, bastante recentes na ordem dos detergentes: o profundo e o espumoso. Dizer que Omo limpa em profundidade(ver o saionete [comédia curta, de duas ou três personagens] do Cinéma-Publicité) equivale supor que a roupa é profunda, o que nunca se pensara antes, e que incontestavelmente a magnífica e a estabelece como objeto sedutor perante os obscuros impulsos de envolvimento e de carícia que existem em todo o corpo humano.Quanto à espuma,todos conhecem o seu significado de luxo: em primeiro lugar aparenta uma certa inutilidade; depois a sua proliferação abundante, fácil, quase infinita, deixa supor na substância que a gera um germe vitorioso, uma essência sadia e potente, uma riqueza de elementos ativos de um pequeno volume; enfim, pré-dispõe o consumidor a uma dimensão aérea da matéria, a um modo de contato simultaneamente ligeiro e vertical, desejado e deliciosamente gozado,quer no setor gustativo (fois grais, petiscos e vinhos), quer no do vestuário (musselinas e tules), assim como dos sabonetes (vedete tomando banho). A espuma pode inclusive ser o signo de uma certa espiritualidade, na medida em que se considera o espírito capaz de tirar tudo do nada, uma grande superfície de efeitos de um pequeno número de causas (os cremes tem uma psicanálise totalmente diferente, são emolientes, calmantes, eliminam as rugas, a dor, o fogo etc.). O importante e ter conseguido mascarar a função abrasiva do detergente sob a imagem deliciosa de uma substância simultaneamente profunda e aérea, que pode reger a ordem molecular do tecido, sem o atacar, Euforia que, aliás, não nos deve fazer esquecer que existe um plano no qual Persil e Omo se equivalem: o plano do truste anglo – holandês Unilever.


Roland Barthesfoi um escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês. Formado em Letras Clássicas em 1939 e Gramática e Filosofia em 1943 na Universidade de Paris, fez parte da escola estruturalista, influenciado pelo linguista Ferdinand de Saussure.

*Esse texto foi reproduzido com a autorização da editora Difel, detentora dos direitos da obra citada. Não podendo nós, Revista RapaDura, fazer outro uso, além desse.

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