A cultura brasileira nas garras das corporações [Válvula de escape]

A cada número a RapaDura publica um artigo à margem da sua edição vigente para arejar o ar e fomentar outras discussões. A essa coluna damos o nome de Válvula de escape. E na sua edição Mitologias, abrimos espaço para a reflexão sobre os rumos da gestão da Cultura no Brasil, escrita pelo músico Carlos Henrique Machado Freitas.  
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Enquanto o Ministério da Cultura segue construindo a maior crise institucional da cultura brasileira, com a gestão de Ana de Hollanda, a GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) assombra a sociedade brasileira com a nada disfarçada expansão de seus braços, enormes por sinal.
Agora, numa emergência temática como numa espécie de releitura da cartilha neoliberal de cultura, a mãe suprema das letras e das artes pela lógica corporativa lança mais um de seus congressos para firmar o ritmo e o crescimento das corporações do setor cultural e mostrar caminhos de novas oportunidades para reforçar a importância que eles julgam ter diante de um claro neocolonialismo brasileiro.
Ter interlocutores que fazem a pregação do pensamento único através de regulamentações e técnicas em uma nítida guerra ao próprio Estado brasileiro tem um custo para a sociedade justo porque tudo ganha novas formas financeiras. As corporações são o exemplo claro da interferência na ordem política dos estados, e é essa estrutura que caracteriza a expansão das oligarquias no nosso tempo. Pragmáticas, tratando sempre do interesse individual das empresas, essas organizações reduzem todo o universo da cultura ao poder exercido com movimento próprio. A presença delas na organização de discursos da política nacional de cultura é um veneno capitalista colocado diretamente nas veias do Estado e da sociedade.
Há muitos anos o espaço geográfico da cultura institucional no Brasil vem sendo fragmentado e compartimentado pela pobreza estrutural oferecida pela globalização cultural. Primeiro porque, dentro desse ambiente, não há espaço para o papel dos intelectuais. Segundo é que a informação totalitária passa a ganhar novos e amplos contornos. E terceiro, com sua perversidade sistêmica a violência estrutural das corporações esmaga qualquer sentido de cultura solidária. É tudo feito pela agressividade do dinheiro, pelo imperialismo que ronda o mundo e que faz de cada país uma sucursal de um sistema global aonde as empresas, as firmas definem de forma pobre como será a produção presente e futura nas relações institucionais.
Para se ter ideia de como a política cultural brasileira está sendo comandada por empresas, a Vale hoje é a maior “patrocinadora” que faz uso de recursos públicos através do golpe tributário chamado Lei Rouanet.
Mas imagino que o símbolo máximo desse total nonsenso venha do Itaú, o maior banco privado da América Latina e que ostenta uma fundação erguida e mantida no coração do centro financeiro do Brasil (Avenida Paulista) com 100% de recursos públicos. De toda a nossa história, provavelmente a Fundação Itaú Cultural seja a instituição que mais tenha se beneficiado com a lei de incentivo à cultura nos seus 25 anos de existência.
Isso, em última análise pode ser classificado como um projeto conspirador contra a liberdade de expressão no Brasil, já que, retirado das mãos dos pequenos produtores, esses recursos nas mãos das grandes corporações, imediatamente revelam uma contradição esquizofrênica pelo próprio caráter da cultura em suas formas institucionais. O Estado, diante do gigantismo da estrutura corporativa, torna-se incapaz de fomentar e regular a vida coletiva brasileira.
No último ano, 2011, para se ter uma ideia, a Lei Rouanet apresentou o índice mais alto de arrecadação e de concentração dos recursos públicos destinados à cultura. A tendência é o agravamento desse quadro ano após ano. Pois não há, sobretudo na atual gestão do MinC, a menor possibilidade ao menos de estagnar a sanha das corporações.
A nós brasileiros cabe reagir à expansão que ensoberbece as grandes corporações e faz da cultura brasileira uma carne servil para ser oferecida ao mundo corporativo como uma sentença de morte de nossas manifestações culturais.


Carlos Henrique Machado Freitas é bandolinista, compositor e pesquisador.
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